ensaio

A fantasia  que desenvolvemos ao longo da nossa vida, começando desde a infância, essa  fantasia é que guarda a realidade daquilo que somos. É nessa linha tênue de fantasia e realidade dentro de nós, onde se guarda chave dos grandes mistérios. A dor que vamos vivenciando ao longo da vida, passa por essa linha quando tentamos nos desvencilhar dela, ou fugindo, esquecendo, simplesmente querendo se curar, e é neste processo que nos tornamos mais fantasia ou realidade. Se a dor que sentimos é profunda, ela alcança o reino da fantasia porque é lá onde ela se esconde, e nos ganha vida em espaço, como uma versão sombra de nós mesmos. Quando não, essa dor topa na realidade e afeta-nos em amargura ou egoísmo e  nos torna a própria sombra projetada no vazio, ou um ser inconsciente de duas formas: individualmente e no coletivo.
Melancolia não é o mesmo que ser deprimido, melancolia é um estado sombrio, por isso  ser sombrio pode significar solidão, criatividade ou um simples traço de personalidade.  A depressão é um declínio desse estado quando a dor faz conexões entre fantasia e realidade.  Deus e o amor, ou um como sinônimo do outro, a própria verdade,  atua a criar um elo de cicatrização, é a penicilina, é criar um ponto onde tudo se justifica, se faz a modéstia. Onde se torna vazio e cura. Ou seja, não mais será uma energia a lhe influenciar nos seus impulsos ou atos impensados, algo simplesmente se estabelece, torna-se aquilo que é, e isso é como o vazio  da memória, uma pérola armazenada feita de abolutamente nada. Entra em sono profundo. Mas desperta se confrontado, na sua mais potente lucidez.

de fato…

Sabe, Freud, eu não acredito em pecado. Não mesmo. E digo, que depois que entendi o significado da maçã, absolutamente, não existe nada em que eu realmente acredite, a não ser em mim mesma. A minha função é somente tirar os medos. Medos esses que podem ser facilmente dissipados ou facilmente fortalecidos. E todos os meus medos, todos literalmente, estão ligados ao ser ou não ser capaz de chegar lá.

mais uma sobre eros…

Sabe qual maior verdade sobre mim que descobri, Freud, a maior verdade dos últimos tempos, algo que é puramente lógico, porém eu nunca havia parado para pensar na significância ou no papel decisivo que isso deveria ter a respeito de mim mesma. Eu nunca amei um homem, de verdade, com base no amor que eu sempre achei que fosse o amor, eu nunca amei e não sei se seria capaz de amar um dia. Mas sei o que é sentir esse amor por um homem, sentir o amor de verdade, o amor totalmente saído da luz da verdade, de entregar-se por não ter forças para viver sem viver aquele amor, mas porque no fundo você sabe que aquele amor lhe torna realmente vivo. O grande mal das projeções, Freud, exatamente o fato de que em matéria de sentimentos nunca pensamos muito, ou seja, somos exatamente como os animais quando sentimos, e agimos a anos luz daquilo que de fato é verdade. Eu pelo menos, o que me faz ser o maior contraste: Excessivamente sentimental e impulsiva, e totalmente racional. Talvez daí onde nasce todas as coisas, desse meu forte antagonismo. Ver o significado de justiça e compaixão só tornaram esse confronto dos meus contrários em um não-confronto e uma clareza tão rápida, quase que no mesmo tempo que se age por instinto.

Continuances…

Por isso, não consigo compreender certas incongruências que a vida tem. Por exemplo, alguém fazer mal a quem se ama. E mesmo que um ato que possa ser atenuado por circunstâncias humanamente compreensíveis, existem certas coisas que jamais teriam algum tipo de correspondência comigo, a não ser por um elo de compaixão. E a compreensão, Freud, já é em si um ato de compaixão.

Divagando…

Então, Freud, faz tempo que não falo com você nesse tom, nessas configurações, pois é… Muita coisa está mudando, Freud, muita coisa mudou, até um pouco dentro de mim, pensamento, Freud, só isso muda, e sempre continua o mesmo…talvez só um pouco mais de lucidez. Isso sempre acontece quando leio, o que vejo, o que leio, o que vejo…reflito-me e concluo. Isso com uma rapidez típica dos coelhos…tudo na vida tem uma equação que torna tudo real, concreto. (nunca pensei um dia colocar concreto como substituto para real). Mas enfim… como eu disse, as coisas mudam, é sempre assim, se transformam…Não é assim a natureza das coisas? E sabe, o problema do ser humano, em grande parte, é aceitar isso, deixar o passado passado a limpo, em consciência, em sabedoria, conclusões, em verdades, nem sempre absolutas, quase nunca…o problema é que muitas vezes não colocamos essa “nova consciência” em nós mesmos, e começamos a julgar no outro. Eu quero saber por que. E se as questões forem dentro de mim, melhor ainda porque são as mais difíceis de achar as respostas. Em relação ao outro tudo é muito lógico e claro sobre o mais perto da perfeição possível, sob todos os aspectos, em intensidade, valores, escolhas, caráter, conduta, consciência, etc…Sabe, eu consigo formar isso na minha cabeça sem seguir nenhuma corrente filosófica, religiosa, mas completamente influenciada por todas elas, ou seja, Freud onde exatamente começamos a ser nós mesmos se nós somos exatamente aquilo que é? Isso é uma matemática simples,  uma equação bem simples… e descoberta na época que a simplicidade era luz sob os maiores mistérios da existência. Ironia não é mesmo, Freud…

Isso é a vida…

Freud, ontem me dei conta de uma coisa. Eu não consigo enxergar o mal,  sabe  eu vejo  os animais  e os seres humanos, consigo distinguir um dos outros e não existe nas minhas definições ações por maldade.  Ontem dois homens, tentaram me  assaltar, um me trancou  na frente do carro e o outro veio por trás do carro, parou na porta do lado do passageiro, abriu e puxou minha bolsa. Eu por pura ingenuidade conversava com o cara   que estava me trancando, dizendo: “como é, não vai sair da frente?” Assim que percebi   que o cara puxou minha  bolsa, eu, automaticamente segurei a bolsa pela alça, nem pensei dele estar armado.  Simplesmente segurei a bolsa, ele quase levava meus dedos,  ele puxou várias vezes, eu segurava e meus dedos doiam.
Tentei fechar a porta  com a outra mão para  machucar o braço dele, mas ele continuou puxando, o outro continuou parado, na frente do carro. Até que chegou um carro atrás de mim e percebeu e começou a buzinar  sem parar, e os dois foram embora .  Eles estavam de bicicleta.  Freud,  fiquei tão nervosa, tinha vontade de ir atrás deles e colocar o carro pra cima. Senti isso, Freud.  É sempre isso que sinto, revolta, raiva. Logo que eles sairam quis segui-los, mas pra mim, a rua que eles seguiram era uma contra-mão pela av. santos dumont, perto da minha casa. Isso seria perigoso, poderia sofrer um acidente ou provocar um. Mas segurei minha bolsa, só pensei  nos meus documentos. Eu estava  indo visitar meu filho mais uma vez numa  uti.

no silêncio suspenso…

Tudo ficou tão distante de mim.  Não o suficiente para não doer, e o que dói eu não sei, talvez a vida nos significados descobertos e que novamente  se escondem quando tudo paira,  quando o cotidiano tira do campo de visão a natureza dos sonhos. Memórias, será que elas se apagam? As vezes me pergunto se  elas deixam de nos pertencer  mesmo quando ainda quando temos lembrança.  E por mais estranho que seja, minhas memórias não estão aqui, nesse lugar, nessa vida, nesse tempo e espaço, minhas memórias estão num campo distante planadas no ar ,  suspensas por um sentido.

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