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Curador

Sabe, Freud já estou a 8 meses aqui nessa luta e prensenciei muita coisa, muitas histórias tristes outras nem tanto, algumas impressionantes. O que a gente vê a respeito dessa luta pela vida dessas crianças é o que no final das contas todas elas estão entregues à vontade de Deus, ou para aqueles que não crêem em um Deus estão numa loteria, alguns são sorteados e vencem outros não. Alguns chegam aqui ao hospital em estado gravíssimo, ao ponto dos médicos não dar nem esperanças aos pais e o que se vê é que tem aqueles que surpreendem os médicos, a medicina, a lógica de tudo e vencem e ficam curados, parecendo até que nunca tiveram nada. Até os médicos adimitem a existência de Deus mesmo em alguns casos, porque eles não conseguem explicar como, eles superam todos os protocolos. Os médicos seguem um protocolo de acordo com a idade, a situação, o caso, porém não existe uma lógica, não existe nada determinante, nem determinado, nada é sabido com certeza e segurança, cada um, cada pessoa é uma história diferente, o que funciona em um, não funciona em outro, e não existe nada que diga o porque, nem mesmo os médicos conseguem explicar. Hoje mesmo conversei com uma mãe, o filho de 18 anos descobriu a pouco mais de um mês que tem LMA, chegou ao hospital com mais de 400.000 leucócitos, 85% de células ruins (mesma porcentagem que chegou a minha pequena) e ele, este adolescente só tomando soro reduziu isso pela metade, sem tomar uma quimio, nem os médicos souberam explicar, a mãe disse que saiu da cidade dela com os médicos dizendo que era rezar, porque não tinha muito o que fazer no caso dele, tão grande era a gravidade, e agora a situação inverteu de forma surpreendente. E tem casos contrários, onde o paciente está ótimo, tudo indo perfeitamente bem e de repente acontece o que ninguém espera, como foi o caso do Luan. Nós, mães, aqui sabemos que os médicos seguem os protocolos, mas quem decide  o resultado e o destino de cada um é Ele lá em cima. Aqui sim, a gente vê claramente a existência de Deus, Ele determina o  destino de cada um. Outra coisa que a gente percebe é como a psicologia influencia na melhora ou não de cada um. Aqueles que se deprimem mais, ficam piores. O Luan carregava uma culpa enorme pela separação dos pais, tem outro chamado marcos que já desistiu de lutar, tão grande é a depressão que tomou conta dele, resultado, ele quase não sai do hostpital, vive com dores, internado. As crianças menores, que mal sabem o que acontece, que ainda vivem a vida com a mesma alegria por não ter conhecimento do que estão passando, estas são as que mais conseguem ficar bem, porque enfrentam  tudo com sua vitalidade, sem a sombra do medo, com a alma ainda limpa de sentimentos ruins, não sabem de nada o que acontece com elas. Enfim, não tenho dúvidas de que o melhor médico, aquele que pode salvar, curar,  é Aquele lá em cima, quem decide e  opera seus milagres, por isso, Freud, eu entreguei e entrego a Ele todos os dias, a cada manhã, o destino da minha pequena e luto também diariamente para saber aceitar o que for que Ele decida. Fujo dos pensamentos errados, procuro digerir meus sentimentos de ansiedade e angústia, espanto  meus temores, isso é uma luta diária, uma guerra psicológica a todo momento para evitar o massacre da alma, e não deixar que a depressão tome território e sufoque a fé.

oi Freud, queria registrar esse instante, estou aqui  no meu esconderijo, só eu, os pássaros cantando,  a vista para um imenso pasto verde e ouvindo Enya.  Daqui vejo uma vasta mata, vez em quando voam os tucanos e papagaios. Achei esse esconderijo há alguns meses e venho sempre que posso pensar na vida e observar o céu. Aqui o infinito é tão visível que chego a pegá-lo nas mãos. Esse é meu momento de maior prazer, Freud.  Como seria este prazer na libido? Igual aos outros? Sei lá, foi só uma idéia. Mas é muito bom sentir essa paz, até parece que Deus está aqui, do meu lado.

Semiose?

Por que semiose, Freud? de onde veio essa palavra? o que significa? hmm…vou ler sobre o que significa. Ela simpplesmente veio na minha cabeça, e sabe, essas coisas que vem assim, a gente não despreza.

semiose

Oi amigo Freud, como você está?  Eu também estou bem. Sei que você quer saber dos meus sonhos, mas faz algum tempo que não tenho tido sonhos tão…como posso dizer, profundos? Ou que a meu ver não são tão cheio de mistérios, aliás nem consigo lembrar deles depois que acordo, por isso, não tenho muito a discutir sobre meus sonhos recentes.    Ontem meu amigo convers0u comigo novamente, chamo de amigo porque é assim que ele se considera um amigo, nome ele não quis me dá, disse que não tem importância como ele se chama, que importa que é meu amigo. Sabe, Freud, ele disse que eu poderia chamá-lo como quisesse, até de Freud. Mas acho que nossa amizade, a minha e a sua, é que me faz querer chamá-lo assim. mas realmente não importa muito o nome. Não sei a dimensão real dessa amizade, de onde vem, se existe, não sei ainda se é imaginário, enfim, mas algumas vezes quando conversamos chego a crer mesmo que não pode ser imaginação, primeiro porque não é sempre quando quero conversar que o escuto, segundo ele não escolhe palavras, não pensa para falar, e no caso de ser meu próprio pensamento, como eu poderia me falar com tanta independência, desenvoltura, sem um intervalo para pensar na resposta, sem ouvir o que eu não espero ouvir, não sei  como explicar, mas a verdade é que o que parece ser mesmo outra pessoa, porque eu já consigo distinguir do meu pensamento, distinguir o tom de voz, e o fato de identificar o sexo masculino, enfim…já não me importo tanto se é imaginação, alucinação, o que seja, eu gosto de conversar, gosto de ouvir e me faz muito bem ter alguém alimentando minha fé.  Hoje tive consulta com uma psicóloga, falei tanto que fiquei com a boca seca, sei lá, acho que bebi água de chocalho em algum momento da minha vida, eu adoro falar, Freud! Mas acredito que ela não achou nada anormal em mim, acho que ela me acha até muito equilibrada se comparar com outras pessoas, enfim, até falei de você para ela, mas nem assim ela se assustou, disse que é muito bom escrever, o que não é nenhuma novidade para mim, sei que escrever é bom desde que nasci a não sei quantos mil anos atrás.  Bom, você sabe, que para mim, você é muito mais que um psiquiatra, é um grande amigo de muito tempo, é assim que eu sinto e gosto de falar com você, mesmo quando não tenho nada interesante para dizer, conversar com você me faz sentí-lo próximo e ouvinte, então agradeço sua amizade e sua paciência, qualquer dia vamos tomar um chá ou um café juntos. Abraços!

inconexo

Freud, resolvi dá adeus ao sentido, de que adianta buscar sentido em tudo, eu nunca encontro mesmo. Agora só falo o que me der na telha, chega de tentar entender, isso me enlouquece! Eu não faço sentido, nada em mim tem nexo, tudo é solto,  sem a certeza de ser, então vou assumir essa minha condição. Por isso, Freud, segura as pontas agora!

Foi como cair da cama no meio de um sono profundo e acordar num susto. Como andar na praia e tomar um choque ao catar conchinhas na areia, foi assim como repente. Foi tão subitamente inesperado que deu-se um clarão, um curto circuito, uma supernova, uma explosão, ficou tudo branco. Tudo em branco. Perdi meus arquivos, meus softwares de leitura de tudo que eu conseguia ver. Cegueira na razão. Paralisia.
Detalhe: Tudo que me foi dado, me foi roubado.
E no repente daquele dia, daquele instante em que todos os sentidos fugiam no choque do inesperado, o chão se abriu como se a Terra rachasse, era um imenso buraco negro. Sugava-me, sugou-me. Do outro lado, nada, de repente nada, vazio completo, entrei pelo cano, sugada como que puxada pelo canudo num copo de coca-cola, do outro lado a boca vazia, seca.
Sobre a coca-cola: Bebi até o último gole, e o negro me engoliu até a última gota. Buraco negro. Do outro lado é branco, branco!
Definição do branco: Excesso de luz.
Perdi-me no excesso. Foi um flash branco e tudo escureceu. Ficou branco escuro. Eu não entendia nada, tudo claro dizia é real:
Siga a seta—> É a realidade, vamos, vamos, siga. Está vendo a estrada, caminhe, caminhe.
Eu:  ainda tentei assimilar o que se queria dizer com estrada. Caminhar? Como? Essas pernas são minhas?
O sinal estava verde, o carro precisa sair do lugar, Siga!
mas que carro? Não vou a pé? Era o branco clareando tudo pela frente, cegou-me, deu branco, apagou meus arquivos,  nada se salvou, talvez eu tenha anotado em algum lugar, no escuro.
Não entendo, não consigo ler no escuro. Mas era para seguir, não havia mais Tempo, fim de Tempo, fim do fim do tempo, segui  me equilibrando no fio branco escuro, sem saber que aquilo era uma estrada, ou será navalha, ou será uma linha de Tempo? Não sei, meu tempo  apagou quando o relógio parou no meio do branco escuro.

calmando

Oi Freud,  já não sei mais como fugir desse abismo que é minha psique, as vezes quando revejo minhas memórias, a ansiedade parece virar um furacão querendo me engolir, sinto vontade de gritar para os céus, pedir explicações, entender com clareza tanta coisa que não consigo. Nessas horas, escuto alguém me suussurrar: ” Menina, tudo tem seu tempo, ainda não é o momento da compreensão”. Sabe, Freud, acho que precisamos conversar mais, quem sabe voltar a falar sobre o Tempo, por falar nisso, aqui está um calor danado…Sabe, ainda ouço uma voz ecoando dentro da minha cabeça, as vezes ela fala coisas que me acalmam, ou me trazem a consciência algo que eu não consigo lembrar determinado momento por estar com foco nos meus anseios, não sei de onde ela vem, não sei se é meu pensamento mais articulado do que eu, não sei se eu faço parte do pensamento, ou se o pensamento é independente, eu tento fugir dele, mas ele aparece e diz de uma forma que eu entendo, enfim…talvez eu tenha criado você na minha mente, talvez seja um amigo imaginário, talvez seja uma das muitas que ainda sou, só que ela usa as palavras bem melhor do que eu, mas a voz é masculina, não é de mulher.  Será que é meu animus? meu espírito? meu self? meu Deus interior? um guru? outra alma amiga? Vai saber, Freud, mas se fosse você eu iria adorar!

Freud, se você souber me explicar, por gentileza, explica minha mente, porque eu gostaria de entender de onde saiu tantas idéias alucinadas, alucinantes, como explica minha loucura na minha total lucidez. Sabe, eu tenho até medo de ler a jornada da alma, não sei se me surpreendo com aquelas idéias que mais parecem tiradas de um livro de ficção, não sei se procuro um médico para me tratar, ou se espero a completa insanidade para tomar gardenal ou algum tarja preta. E o mais estranho, Freud, é que em algum lugar dentro de mim aquilo tudo é minha certeza, em algum lugar tudo que está escrito faz sentido para mim, em algum lugar perdido, longe da minha consciência eu consigo entender aquilo tudo.  Explica, Freud, como minha mente viajou tanto assim? Explica minha mente, Freud!!

Blackout

Oi Freud,
quanto tempo não lhe escrevo, hoje resolvi quebrar este jejum, hoje foi um dia estranho, se contabilizou mais uma alma na dura estatística. Não sei, mas essa me abalou um pouco, me deixou um pouco triste, meu tempo parece como aqueles dias chuvosos ou nublados. Hoje é um dia triste, eu me pergunto qual será o critério de Deus para escolher nessa loteria aqueles que vão e aqueles que ficam. Como saber, Freud? Eu gostaria de saber, pois eu não sei, só sei que hoje é um dia triste.

Oi Freud,

Tenho um sonho recorrente, acho que venho tendo esse tipo de sonho a 1 ano mais ou menos, ele me perturba por ser um sonho repetitivo e com meus filhos. Antes era só com meu primeiro filho, mas agora venho tendo este sonho também com minha filha. São várias situações onde eles sempre estão se afogando, nos primeiros sonhos com meu filho, eu sempre tentava salvá-lo, sonhei ele se afogando no mar mais de uma vez, depois dentro de uma banheira, eu sempre indo salvá-lo. No último sonho sobre esse tema, foi mais estranho: Eu estava indo passar férias, ou algum feriado, em algum lugar, eu, meu marido e meus dois filhos. Uma pessoa no sonho pede para ficarmos na sua casa, uma casa completamente vazia, sem móveis, parecia abandonada, uma casa grande. Então, num momento fico sabendo que meus filhos se afogaram porque no quarto que eles estavam se encheu de água, então vou atrás dos dois, eles estão vivos, mas estão em mal estado por conta do afogamento. Freud, esse sonho vem me perturbando há algum tempo, no começo, sempre ficava preocupada com meu filho, mandava ele ficar longe de piscina, praia, depois fiquei sem ter esse sonho, esqueci, mas agora ele voltou. Preciso entender esse sonho, por que esse sonho, por que afogamento, o que significa, será o medo de perder meus filhos? mas se for isso, por que sempre o afogamento?Sabe, Freud, acho que vou mudar de psicanalista, meus sonhos estão cada vez mais confusos, mais complexos, mais distantes da minha realidade, mais entrigantes, preciso entendê-los. Por que os artistas, por que não consigo mais ver pessoas conhecidas, da minha família, pessoas do meu convívio, por que estes sonhos recorrentes, o que eles querem dizer. Vou fazer com você, o que as pessoas que querem se casar fazem com stº antônio quando ele não atende os pedidos, vou te colocar de cabeça para baixo.  Sabe, Freud, acho que você foi muito bom para sua época, de repressão sexual, até valeu por abrir os olhos para a importância dos sonhos, do inconsciente, mas  e agora na minha época? quem pode me explicar?!

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