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Freud, acho que você não entendeu, realmente é difícil explicar algo totalmente novo, é difícil achar palavras e eu, quanto mais leio menos palavras tenho para descrever minhas idéias. Sabe, Freud, quando a gente morre, você por exemplo, vou usar você como exemplo. Você morreu, carregou consigo seus sentimentos, seus carmas. Para sua evolução você precisa compreender porque teve a vida que teve, como suas escolhas levaram você ao degrau em que estava. Então, suas encarnações lhe explicariam estes porquês, diriam porque você fez as escolhas que fez. Então, suas encarnações anteriores seriam  explicadas nas  vidas anteriores de outros que se assemelham aos seus carmas e sentimentos, a sua simetria com as destas pessoas fariam com que sua mente se misturassem a destas pessoas e você neste momento recordaria da vida desse outro como sendo uma vida sua anterior, numa encarnação anterior. Na verdade, vivemos e morremos, mas o espírito é eterno. E esse espírito será quem quiser ser em outra vida, mas levará consigo a simetria de um anterior, simetria essa que se dá pelo espírito, que se define pelo carma ou sentimentos. Então, Freud, quando eu morrer, eu não existirei mais, eu serei qulaquer um que quiser ser dos muitos que fui , mas terei a individualidade na minha simetria, nos meus sentimentos, no meu carma individual. E irei renascer como outro totalmente novo. Sabe, Freud, a gente ainda vai bater um papo, quem sabe nessa vida, num bar qualquer tomando um café.

escada

Não existe no mundo mais do que um único espírito, Freud. Redescobrir isso hoje pra mim foi assustador, os muitos que aqui vagam na verdade são uma grande ilusão, inclusive eu. O eu, Freud, é uma grande ilusão, essa é a maior verdade que existe. Eu já fui você, já fui o papa,  um mendigo, uma virgem, um qualquer um. Na verdade, todas as almas estão presas a uma espécie de jogo, como aquele jogo “resta um”, ao mesmo tempo que existimos concretamente, somos uma mera peça que a qualquer momento será unida a outra peça semelhante, tornando uma, basta que haja simetria de almas. E aí se recomeça um novo ciclo de carmas e vidas, da junção de almas semelhantes e diferentes com suas bagagens, forma-se uma nova alma, então um novo ciclo de vida recomeça, e por aí vai indo até que resta apenas duas almas semelhantes ou gêmeas, um espírito, e chega-se ao propósito de toda a criação, o uno. Quando eu morrer, Freud, eu poderei recordar qualquer vida passada, poderei ser qualquer um que já viveu antes de mim, que teve os mesmos sentimentos, os mesmos dilemas cármicos como eu, as semelhanças entre nós é que me farão crer que eu vivi a vida daquela pessoa, porque incosnciente somos um só, minha memória no mundo inconsciente será através dos meus carmas, meus sentimentos, então eu poderei ser qualquer um, basta que eu e esse um tenhamos simetria, e teremos a memória um do outro como sendo o mesmo, então os dois viram o mesmo um, em duas vidas diferentes. É aí que estamos todos ligados, uns aos outros, porque outros não existem. eu sou o outro, porque um dia eu terei a mesma essência do outro e nós vamos nos misturar e pensar que fomos o mesmo em encarnações diferentes. Que loucura, Freud. Sabe como me sinto agora? Feliz e triste, paralisada no tempo, eu não sou ninguém,  sou eu, e não sou o espelho. Eu sou o que eu faço, então eu sou um verbo sem a primeira pessoa, mas ao mesmo tempo eu sou a primeira pessoa na conjugação desse verbo. Se um dia eu conseguir descrever tudo que minha mente vê e compreende, pode ter certeza, Freud, que eu terei um livro.

hipocampo

A vida tem muitos mistérios, coisas incríveis acontecem e quase sempre não tem explicações lógicas para elas. As vezes fico pensando, Freud, será que todas as pessoas buscam entendimento desses mistérios, como eu? Será que todo mundo se importa com questões filosóficas do tipo, “quem sou eu”, de onde viemos, pra onde vamos? Sabe, as vezes falo dessas coisas com uma naturalidade, porque imagino que essas questões fazem parte da vida de todo mundo, mas as vezes percebo que alguns estranham. Sabe, Freud, se estas pessoas pudessem vivenciar tudo que eu já vi acontecer comigo, tudo que eu já senti, ou se elas soubessem disso, com certeza diriam que eu sou louca, aliás eu sempre ouvi essa palavra me rondando, hoje, sabendo de mim, como sei agora, acho que se eu estivesse no lugar de outra pessoa e ouvindo contar minhas experiências eu diria também que tudo é loucura.
Hoje li alguns textos antigos e quando leio e lembro daqueles momentos, das emoções, dos sentimentos, é incrivelmente lindo demais. Eu morreria mil vezes, viveria tantas outras, faria tudo para viver novamente e experimentar a estranheza da vida, mergulhar de cabeça,  beber toda a água, e até me afogar nesse imenso mar de mistérios. Sabe, Freud, voltar a ser criança, conversar com os  muitos dentro de mim, com as estrelas, trovões, ver o big-bang, sentir lucidamente o sabor de cada pedaço da minha loucura, foi de tudo, um dos maiores prazeres da minha vida, por isso eu posso falar com toda segurança e satisfação, viver vale muito a pena.

Existe alguma coisa que me bloqueia a escrita, Freud. Não essa escrita/conversa aqui no seu divã, mas a outra escrita, a não-declarada, a não-descritiva, a dita no escuro, sem saber de onde vem e pra onde vai. Essa escrita que eu pensava me encher a alma, na verdade, me esvaziava a cada verso, como um córrego de rio, uma vazante a escorrer em letras e palavras minhas reservas de água de chuva. Um rasgo na minha cis(in)terna fez riacho o que me era riso, deixando um vazio de lágrimas. Não sei, Freud, acho que não sei mais escrever, ou algo me bloqueia a escrever. Talvez a poesia seja para almas inquietas, ou seja para almas que transbordam. Um dia me enganei achando que eu  tinha alguma poesia, grande engano,  eu nunca transbordei,  e só vazei. E agora, Freud,  me resta olhar essa caixa vazia.

Oi Freud,
Como estão as coisas? Eu continuo aqui descobrindo ou redescobrindo o que sempre soube. Sabe, agora meu maior prazer são meus sonhos, espero ansiosa a hora de dormir. Meu sono é como um curso noturno, algumas vezes são como palestras, vem explicações, compreensões sobre a alma humana, outras vezes me dão lições pra casa, e tenho que passar o dia tentando entendê-los, como um teorema ou uma questão matemática. Quase sempre não consigo recordar o sonho todo, são fragmentos, as vezes acordo com sensações boas. Meu último sonho alguém conversava comigo, não lembro da figura, acho que nem tinha realmente uma pessoa falando, mas era uma conversa com alguém, sem face, sem corpo. Esse alguém me falava do alinhamento dos planetas, nessa hora veio a imagem do sistema solar no sonho, todos os planetas alinhados com o sol. Esse alguém dizia que isso era a Urânia, como se fosse uma espécie de teoria de Urãnia. Dizia que esse alinhamento era Urânia. E eu respondia num sentimento de surpresa e alegria a essa “pessoa”: “Eu sempre achei que fosse assim na mente, escrevi sobre essa teoria, mas não tinha nome nenhum, sempre foi meu pensamento.” E essa pessoa me dizia que por esse motivo eu iria fazer parte do grupo de estudos sobre Urânia.  Não lembro de mais nada do sonho, nem sei se teve mais alguma coisa na forma de sonho. Depois lembro que fiquei acordada de olhos fechados. Na mesma noite compreendi a relação prazer x tempo x ansiedade. Nada a ver uma coisa com a outra!!?  Sabe, Freud, as pessoas estão cada vez mais mal resolvidas com a questão do prazer, quando não condenam o prazer, possuem um prazer não muito saudável, ou buscam prazer de forma errada, projetando de forma negativa,as vezes nos vícios, nas drogas, enfim…as pessoas estão ficando doentes. Afetando o prazer,  afeta-se o Tempo (inconsciente ou não). Quando estamos fazendo algo com prazer esquecemos do tempo cronológico. Gastar tempo num prazer doente, de forma não-saudável nos leva a um aumento ou surgimento da ansiedade. Sabe, seria como uma queima de combustível lançando na atsmofera(alma) gases tóxicos. Estamos vivendo um efeito estufa na alma também, mais uma prova de que tudo que acontece fora é um reflexo de dentro.  Quando estamos saudáveis com nosso prazer, nosso Tempo corre também de forma saudável, na medida, com suas quatro estações, tudo nos conformes, então aí não existe a tal da ansiedade. Sabe, Freud, cada vez mais entendo você com relação a questão do prazer, mas também, cada vez mais discordo em relação ao prazer puramente sexual.

sonho

Oi Freud,

Sonhei com um gato branco dentro do meu carro, e ele vomitava dentro do carro, num lençol que estava lá pra ele. O que significa, Freud?!

Vácuo

Freud, como descobrir de onde vem certas sensações, quando nada diferente (aparentemente) acontece? Como saber o que nos causa estas sensações se tudo continua da mesma forma, no mesmo lugar? Sabe, Freud, existe algo que preciso entender dentro de mim, um sentimento estranho, não sei se é medo, tristeza, saudade ou insegurança. Talvez eu sinta falta do casulo das palavras, não sei…sinto que elas me deixaram, não tenho nada mais a escrever, nenhum mistério…talvez seja o vazio. As palavras me deixaram e eu sinto falta delas, sinto falta da minha lúcida loucura em desbravar minhas interrogações, talvez eu seja uma boboleta que não queira voar, sinto falta do casulo. Talvez seja medo, mas não sinto como medo…talvez seja ausência de mim mesmo, de alguma parte que esteja morta, e que deveria morrer. Sinto falta de te ouvir…parte minha anônima.  Seja o que for, eu só quero declarar, que amo o amor, esse que me liberta.

A Ilha

Freud,  eu entendi o que você quis dizer sobre a libido, entendi na medida do meu conhecimento sobre seus estudos, claro. Mas, Freud, existe um prazer na alma muito  maior do que os simples prazeres experimentados pelo corpo, existe um  prazer muito além do  sexual. Existe um lugar na alma, uma ilha que quando você está nela experimentamos um prazer único, solitário, o prazer de ser. É como se passássemos a vida toda tentando chegar nessa ilha, sem saber que ela existe, é como um andar cego para chegar a um lugar que não se sabe onde, nem mesmo sabemos que no fundo queremos  chegar nele. Como chamar esse lugar? Não sei… Mas é um lugar calmo; mesmo  ilhados, não estamos sozinhos…a experiência é solitária, mas o sentimento não é de solidão. É um estar cheio e vazio ao mesmo tempo, é uma falta de tempo, é a ignorância de tempo; viver um segundo eternamente. É sentir que se existe plenamente;  estar vivo, mas desfrutando a morte, como se morrer fosse o sabor de estar vivo. Não sei explicar, Freud, mas acredito que toda criança quando nasce, antes de experimentar qualquer prazer, já nasce com esse prazer na alma, mesmo sem saber definir isso como alguma coisa, ou mesmo como um prazer, e ao longo da vida isso vai se perdendo, como vai se perdendo a fantasia. E daí tentamos ao longo da vida  resgatar aquele mesmo sentimento da infância, desse prazer de ser, existir, porque primariamente é esse prazer que dá sentido a todo o resto. Talvez seja a fonte do amor, o amor energia, talvez tenha outro nome, não sei, mas eu sei, com certeza,  que fica numa ilha.

Sabe, Freud, acreditei em pessoas falsas, que nunca existiram, acreditei em mentiras, mas o mal nunca existiu fora de mim, eu que permiti, eu que me enganei, tudo sempre foi o que é, as pessoas que passaram na minha vida, foram o que são.   Não nego a decepção com algumas pessoas que considerava importantes pra mim, mas ao recordar as máscaras, desfaço minhas fantasias. Só você, Freud, sempre foi meu amigo sincero…mesmo que numa imagem, o meu amor lhe deu vida e voz.

Sabe, Freud, descobri que não carrego culpa faz muito tempo. Os erros que cometi, que pesaram na minha  consciência, livrei-me quando compreendi que estamos aqui para crescer com os erros e consegui me desculpar quando compreendi que apesar da idade, ainda somos espíritos imaturos, muitas vezes. Nunca senti culpa por sentir prazer,   como a maioria das pessoas que condenam os prazeres da vida, do amor, do sexo, da felicidade, como se o prazer fosse blasfemar contra Deus, ou que sentir isso  precisasse de  uma espécie de autopunição por consequência, esse engano, esse sentimento equivocado sobre a vida eu não tive.  Hoje, Freud, não importam o que digam sobre mim, o que pensem sobre mim, o julgamento que façam, porque hoje eu sei quem eu sou, como eu sou, sei da minha alma…essa minha alma, tão minha, que não existe nada nela, nenhum lugar que eu não tenha visto, explorado. arrumado com minhas próprias mãos.  Não existe imagens fora de lugar, conceitos sem explicação, pensamentos gerado por aparência, tudo foi experimentado, vivenciado, pensado e repensado, assimilado e compreendido. Não existem feridas abertas, não existe mal. As poucas interrogações que ainda me restam já não me atormentam porque até elas já não fazem importância, afinal elas devem existir, quando elas não existirem mais será o fim.     Sabe, Freud, talvez eu esteja perto daquilo que a gente chama felicidade….

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